O Doador de Sonhos: Ato II - Mas tudo que pudesse dizer não bastava.


Leia ouvindo: Give Me Love - Ed Sheeran


               Recomeçou a sussurrar pausadamente. Parecia a continuação da música que cantava, anteriormente, enquanto afundava no mar: "Venha me assombrar como da última vez. Liberte-me desta prisão feita de sonhos e pesadelos".
               Apertando os olhos para enxergar além da escuridão, ela avistou um vulto que se aproximava andando entre as árvores sempre em sua direção. A menina não conseguiu distinguir um rosto; mas pelo jeito que o vulto caminhava e mantinha os braços cruzados, dava para ver que lutava contra si próprio, tentando permanecer parado. Fosse quem fosse, era alto e usava um capuz que cobria a cabeça e sombreava o rosto. E... vários passos depois, a distância entre eles sempre curta — a menina viu que a coisa havia largado os braços e segurava algo nas mãos, parecendo um... ou seria meramente um fardo de vestes?
               Ele parou diante dela e a menina fechou os olhos, assustada. As imagens turvas e sem foco, via apenas a coisa ali, diante dela. Tomou fôlego e abriu a boca para gritar, mas a única coisa que ressoava era:

Um... Dois... Três...

               Então, inesperadamente, um fluxo veio-lhe subindo do seu coração pesado, ensurdecendo-lhe os ouvidos, forçando-a a fechar os olhos e relaxar. Segundos depois, permaneceu ainda uns instantes parada, o rosto sem expressão, lasso e cansado. Aos poucos foi renascendo, abriu os olhos vagarosamente e voltou à luz do dia. Frágil, respirando de leve.
               Por um segundo que continua a eternidade, a menina fitou o rosto da coisa, que parecia um homem. Seus olhos cinzentos abertos, vidrados e inexpressivos, como janelas de uma casa deserta, admirava a máscara que cobria o rosto do rapaz. Então, antes que a mente da menina pudesse aceitar que alguma coisa aconteceria com ela, antes que pudesse sentir alguma coisa além de atônita surpresa, sentiu que alguém a levantava.
               Como sempre fazia com suas vítimas, o homem, segurando a menina indefesa, começou a caminhar, saindo das redondezas do lago.
               Estavam se aproximando de um parque de diversões abandonado. De repente, ao ultrapassarem um certo limite, as cores sumiram e, no lugar delas, surgiu um emaranhado de tons fortes e intensos, acompanhados por uma distorção em preto e branco.
               Ali, ao lado de onde estavam, uma montanha-russa seguia seu percurso sozinha, silenciosa, cortando o vento como uma navalha cega, provocando um barulho torturante. A medida que caminhavam, outros brinquedos iam surgindo... À esquerda, um carrossel girava, girava e girava, lentamente, etapa por etapa. Os cavalos, todos quebrados — como se alguém tivesse usado as unhas para esculpir as marcas e arrancado os fios que os segurava no ar — cavalgavam gradualmente, sem nada os segurando, rangendo e tintilando (como se fossem sinos). À direita, crianças estavam reunidas em frente a um palco, esperando por alguma apresentação. Todas pareciam ter a mesma idade e o mesmo tamanho. Não conversavam entre si, não mexiam os membros do corpo e, tampouco, respiravam. Porque eram estátuas... Estátuas feitas de fumaça, cristal e diamantes.
               — Estamos quase chegando, senhorita — disse o homem indolentemente, sorrindo por detrás da máscara que cobria seu rosto e suas feições — Vamos nos divertir muito.
               Aos poucos se aproximavam de uma roda gigante. A menina, agora, podia ouvir os ferros enferrujados da roda gigante baterem um no outro. Com o barulho, seus olhos se abriram e, agora, ela via tudo...
               — Para onde está me levando? — perguntou a garota, sonolenta, com o tom de voz quase inaudível.
               O homem ignorou-a, continuando a caminhar em direção a roda gigante, que agora estava iluminada — as luzes, que deveriam transmitir cores amarelas fortes, destacavam-se pela aparência morta e, como todo o resto, em preto e branco.
               Tudo pareceu parar, de repente. E o homem jogou a menina no chão, com força, sem se importar. Ela, atônita e com dores na cabeça, ergueu a cabeça alguns centímetros e percebeu aonde estava, de verdade.
               — O que vai fazer comigo? — perguntou a menina, olhando para a roda gigante e retorcendo os lábios, enjoada.
               — Nada que me surpreenda — respondeu o homem, calmamente, como se tivesse informando o clima de hoje.
               — Vai me matar?
               — Como se morrer fosse a pior das coisas. Por alguns instantes, cheguei a pensar que fosse diferente das outras, mas agora vi que são todas iguais. Sempre preocupadas se vão morrer. É como ver o mesmo filme repetidas vezes. Você já sabe até mesmo o que vão falar, antes mesmo de pronunciarem... Apenas fique quieta!
               — Não estou preocupada se vou morrer... — respondeu a garota, quando percebeu que o homem se afastava, em direção a roda gigante — Seria uma consequência muito óbvia. E odeio o óbvio. Mas, como todo ser humano, estou curiosa para saber o que vai fazer comigo.
               — Curiosa? — o rapaz parou, olhando-a de relance — Continue a tentar mudar minhas ideias a seu respeito. Vamos, está indo bem. Ninguém nunca ficou curiosa aqui. O medo sempre foi maior que qualquer sentimento.
               — Por que não abre logo o jogo comigo?
               — Porque o suspense é um dos aperitivos do jogo. Mas digamos que estamos indo ao cinema. Você é minha convidada.
               — Qual é o seu nome?
               O homem, de pé, continuava olhando-a de relance. Ao ouvir o que perguntava, virou-se e agora caminhava em direção a menina, que recuou, assustada.
               — Na hora certa você vai saber. Mas, não sei o seu. Senhorita...?
               — Catherine. Anne Catherine.
               — Senhorita Catherine — repetiu o homem, torcendo os lábios por detrás da máscara. Falou o sobrenome da menina como se fosse um professor e estivesse fazendo a chamada — Eu lhe ofereceria uma xícara de chá, mas... — se levantou, íngreme, acelerando os passos — Preciso terminar logo com isso, antes que... deixa pra lá!
               Passou alguns minutos e Anne continuava tentando se levantar, mas algo a prendia no chão e drenava suas forças, com uma lentidão anormal. Esperou ver o homem retornar com alguma arma para machucá-la, mas a única coisa que via era a roda gigante girar lentamente, quase que centímetro por centímetro.
               Olhou para os lados, tentando encontrar alguém para ajudá-la, mas ninguém aparecia. Só podia ver os brinquedos se movimentarem sozinhos, como se tivesse alguém lá.
               — Estamos prontos... — anunciou o homem, assustando Anne — Desculpe se te assustei, não foi minha intenção. Agora vamos, depressa, antes que o sol retorne.
               Anne não o respondeu e esperou para ver o que a esperava naquela roda gigante. Agora que estavam pertos, Anne conseguia ver os detalhes do brinquedo. Por mais que a roda gigante fosse imensa, os cubos em forma de quadrados (que obviamente serviam para carregar as pessoas que entravam neles) eram pequenos demais para abrigar duas pessoas e Anne deduziu que embarcaria sozinha. Não havia cor, mas pela tonalidade do brinquedo, concluía-se que era muito antigo. O ferro que segurava as cabines eram entrelaçados em uma madeira vertical, com musgos e galhos muxos que o envolviam. Aquele brinquedo, definitivamente, não era seguro.
               Se aproximaram o suficiente da cabine. O homem olhou para Anne uma última vez e pensou em tirar a máscara, mas, quase que imediatamente, os motivos que o faziam estar ali, vieram à tona muito fortemente e ele se conteve.
               — Está na hora de executar os deveres da minha maldição. Vou colocá-la nessa cabine e, depois disso, a roda gigante vai começar a girar e vai parar assim que der a primeira volta. Quando chegar aqui, em frente a mim, outra vez, vai começar a ver flashbacks sobre a minha vida. Você vai sentir tudo que eu sentir. Cada dor, cada desejo, cada vontade de gritar de desespero. Ou todas às vezes em que tentei suicídio e não conseguir, porque algum intrometido se atreveu a me impedir. Vai sentir a dor da solidão, de olhos para os lados e só ver desprezo... injustiça... calamidade, surtos psicóticos e... — o homem fechou os olhos, atormentado pela próprias memórias que ressurgiam em forma de retratos — A perda da humanidade.
               Pegou pelo braço de Anne e a jogou dentro da cabine. A menina, lá dentro, pressionou as mãos sobre o vidro da janela e esperou.
               O homem caminhou alguns centímetros para o lado e, ao chegar a uma grande máquina em forma de caça níquel, pressionou o dedo em cima de um botão — O jogo vai começar...
               Apertou-o e a roda gigante começou a girar...




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