O Doador de Sonhos: Ato III - Enquanto corria, seu rosto brilhava...



Para uma melhor apreciação, por favor, leia ouvindo: It's Time (Imagine Dragons).


               Quando o homem pressionou o botão, algo sumiu de dentro dele. Pairava na penumbra de sua própria floresta insuspeita (seu baú de anseios, que se abriu, outra vez, sem a sua autorização). Movia-se agora de leve e seus gestos eram fáceis e novos. As pupilas, por trás da máscara, escurecidas e alargadas. De súbito um animal atormentado, faminto, assustado como uma corça. E seu corpo era apenas memórias frescas, onde se moldaram como pela primeira vez as sensações de antes.
               Não queria fazer aquilo, outra vez. Torturar um inocente por puro acaso de seu próprio passado. Recuou alguns passos, com às mãos sobre a cabeça, ajoelhou-se e começou a gritar. Anne, do outro lado, com as mãos pressionadas sobre o vidro, esperava que as portas se abrissem para, assim, correr paras ajudá-lo. Mas, ao invés disso, todo o parque de diversão pareceu parar. Ou melhor, retroceder.
               De alguma forma.
               E a sua maneira.
               A montanha-russa, que deveria prosseguir com o seu percurso interminável, ao norte, a seguir, acabou recuando com muita velocidade. Os carrosséis, que flutuavam e cavalgavam horizontalmente, começaram a girar ao redor da conoscópia, com rapidez.
               Aqui e ali, Anne percebeu as cores voltarem devagar e em pontos fixos dos brinquedo. Mas, o preto e branco continuava lá, impregnado e vivo.
               Alguma coisa estava acontecendo.
               O homem encapuzado se levantou, tonto, observou por entre as vestes negras e viu que as cores estavam querendo retornar. Furioso, saiu correndo em direção a roda-gigante, necessariamente no lugar onde Anne o observava.
               — O problema está em você! — rosnou o homem, afastando-se, ao mesmo tempo da cabine, tão depressa que caiu. Mas se levantou logo em seguida, com a fúria acesa — Você não está com medo de mim! TENHA MEDO DE MIM! — uivava o pobre rapaz, batendo repetidas vezes no vidro da janela da cabine.
               Anne se entreolhou e, agora, mais do que nunca, desejou ajudá-lo.
               — Como quer que eu tenha medo? — respondeu Anne, calma, mas respirando muito acelerado, enquanto seu coração saltitava de ansiedade.
               — Não seja estranha e anormal! Você está em um parque de diversões abandonado. Não consegue ver cor alguma. Está de frente a um homem desconhecido, estranho, com uma capa e uma máscara cobrindo o rosto. Não sabe onde está e nem porquê está aqui. E muito, muito menos o que vai acontecer com você! Deveria estar em pânico, gritando, chorando, implorando pela minha misericórdia, mas, ao invés disso, está me olhando com PENA!
               — Não estou com pena de você. Não sou de sentir pena das pessoas. E as cores não estimulam alegria, não para mim. E olhe para você mesmo, fingindo ser alguém que não é. Vai precisar de muito mais que um simples parque de diversões em preto e branco para me assustar.
               — Anne, por favor... NÃO ME FAÇA ENTRAR NOVAMENTE EM SUA MENTE...
               — Você entrou na minha mente?!
               Enquanto discutiam, as cores iam se aglomerando em pontos verticais e horizontais. Lá no palco, palmas abafadas eram ouvidas, vindo das crianças. O mágico, que se apresentava, piscava os olhos muito lentamente. E um som agudo era transmitido...
               Pareciam sinos badalando. O homem ouvia o barulho e parecia ser atormentado por eles.

Tlim, Tlim, Tlim...

               Olhou ao redor de si mesmo, arfando de leve, francamente iluminado, como numa vertigem. Alçou ligeiramente a cabeça, perscrutou o espaço e tinha consciência do resto do parque que se perdia na escuridão das cores. Os objetos ocos e vagos flutuando pelos cantos, em cada área, em cada ponto de partida e término. Lembrando-se das pessoas isoladas que um dia brincaram por lá, talvez dentro de um sonho intransponível e secreto. E que, agora, estavam perdidas e soltas por caminhos que nem mesmo ele conhecia.
               — TENHA MEDO DE MIM! — o homem gritou, girando, nervoso e com os joelhos fracos.
               Agindo pelo impulso, saiu correndo em direção a máquina de caça níquel, pressionou o botão com as duas mãos e fechou os olhos. Trouxe de volta todas as emoções que um dia sentiu. Escolheu a que necessitava agora e transportou-a para a mente de Anne, que, ao sentir o impacto em sua mente, começou a gritar e espernear. Era uma dor diferente, pois afetava não somente seus nervos e seu coração, mas a sua própria alma, literalmente.
               — E agora que está com medo. O jogo, finalmente, vai começar. Prepare-se!
               E a roda gigante começou, de novo, a girar.
               Anne, com dores, sentiu que sua mente estava sendo transportada para um lugar distante. Muito, muito distante do parque de diversões.




Portland, Oregon, Estados Unidos.
17 de Outubro de 1998.



               Estavam na Nourmealand Boutts Street, se aproximando da ponte que ligava o povo de Grinemauld ao centro da cidade, que ficava ao oeste. Anne fora transportada para, especificamente, dentro de um Tempra, onde havia três pessoas, que conversavam animadamente.
               O homem que estava ao volante tinha cabelos grisalhos , olhos verde-esmeralda e segurava a mão da mulher que o acompanhava, na cadeira ao lado, que tinha longos cabelos encaracolados, amarrados em um rabo de cavalo mal feito. Pareciam conversar sobre algo que chamou a atenção deles em algum livro que leram.
               Anne os observava como platéia. Sentia o desconforto da poltrona do carro, o cheiro do perfume da mulher, do vento, que entrava bisbilhoteiro pelo vidro quase aberto da janela do carro. E, o mais intenso e profundo, o toque das mãos do menino que estava sentado ao seu lado, olhando para à esquerda, onde as montanhas eram apenas vultos — o carro estava indo rápido demais.
               A criança tinha uma aparência bastante peculiar. Cabelos loiros, que estavam caídos sobre os olhos azuis-esverdeados (uma cor que Anne nunca viu em toda a vida) e uma pequena cicatriz do lado inferior dos seus lábios. Ela sentiu vontade de perguntar aonde estava, mas não saia nenhum som dos seus lábios.
               Mas, então, tudo aconteceu rápido demais.
               De repente...



Atualizações: Quarta e Sábado!

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