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De todos os loucos do mundo eu quis você...


             Era uma nova escola, novas pessoas, novos medos a serem enfrentados e minhas calças se borraram. Sempre foi difícil fazer novas amizades, nunca fui sociável e muito menos seguro de si mesmo. Aquela escola era meu pesadelo mais sombrio e nada que eu pudesse dizer bastaria. Eu precisava ir, eu tinha que ir e guardar o medo por tempo o suficiente para sobreviver pelo menos no primeiro dia de aula...

             Foi quando eu a vi sentada na primeira cadeira do lado esquerdo da sala de aula. Escrevia no seu caderno tão delicadamente como se fosse uma pluma e tivesse a acariciando com seus dedos finos e sensíveis. Pensei, por milésimos de segundos, em me aproximar dela e falar qualquer coisa que fosse. Um "Oi, tudo bem?", ou até mesmo um "Com licença"... Mas nada, absolutamente nada saiu da minha boca.

             A coisa mais ousada que fiz foi sentar na cadeira ao lado dela. Sabe quando, sem querer, você bate o cotovelo na mesa e senti um pequeno choque elétrico? E fica alisando a pele como se, de fato, tivesse queimada ou eletrocutada? Foi isso que aconteceu quando ela me tocou pela primeira vez. Quando veio falar comigo, quando ninguém mais quis fazer. E eu consegui olhar diretamente nos olhos dela, eu consegui enxergar além do que nunca consegui em qualquer pessoa próxima a mim... A maneira como ela mexia os cílios quando piscava, o modo como sua boca se delineava e se esboçava em um sorriso mais perfeito que o de Monalisa, como ela ria e escondia os olhos para se segurar... Tudo, absolutamente tudo a fazia ser a coisa mais perfeita já vista pelos meus olhos cansados e sonolentos.

             Eu estava cansado de ser louco sozinho, de fazer as minhas loucuras sem ter ninguém para me acompanhar e achei que essa menina, esse quadro moldado e pintado para a melhor das ocasiões, poderia ser a parte que faltava em mim. Aliás, a loucura dela parecia um pouco a minha, mesmo...

             E dias depois, por incrível que pareça, ela se tornou minha melhor amiga. Fazíamos um dueto fora do tom como se fossemos uma dupla de cantores que estavam começando suas carreiras agora. E era tão incrível vê-la cantar, vê-la fazer caretas ao chegar ao refrão, sem tirar os olhos de mim nem se quer uma vez. Saímos no intervalo das aulas e ela fazia questão de andar próxima a mim... Tinha vezes que nossas mãos se encontravam sem querer e aquele choque acontecia de novo, me fazendo esboçar um sorriso bobo. Eu via que ela gostava de mim pelo que eu era, com todos os meus defeitos, com o meu rosto quase deformado por conta das espinhas. Eu sentia que nossa relação era baseada nos mais incríveis e verdadeiros sentimentos.

             Mas acabei descobrindo que nada do que pensei era real. Em um dia de Novembro, as pessoas da sala acabaram descobrindo que eu a amava e, obviamente, essa certeza acabou chegando aos ouvidos da minha melhor amiga... Ela ouviu, abaixou sua cabeça e nos seus olhos eu pude ver o desprezo. Nos seus olhos eu pude ver que nada do que eu imaginava ser real existia, de fato. Ela me virou as costas pela primeira vez, ela me esnobou, me fez de cacos de vidro inutilizáveis e não precisou mais de mim para nada.

             Eu a tinha escolhido para ser louca comigo. Afinal, a loucura dela parecia um pouco a minha. Mas nada disso aconteceu, nem se quer continuamos ser amigos. Desse dia em diante deixei de acreditar no amor e no que ele tem de mais verdadeiro... 



Baseado na música "De todos os loucos do mundo", da Clarice Falcão

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